quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Em busca da serotonina perdida

Todo ano a mesma coisa.

Isso é bom. E não é.

Tem coisas que se repetem e são vida.
Outras, trazem aflição.

O Natal é nosso momento ápice de esquizofrenia.
Ou de dupla personalidade.
Ou, na moda, bipolar.

Luzes, flores, comidas, afeto, presentes, correira, trânsito.

Desde quando dar presentes de forma obrigatória é gostoso?

Temos obrigação de dar presentes na tal da passagem do  dia 24 para o dia 25 de dezembro.

Mas por quê?

Se nos perguntarmos "porque" alguns ateus e afins entrarão no Prozac: quando se toma uma postura crítica ou se é exilado ou doente.

Misturamos então os mais tenros e doces sentimentos (família, caridade, amor e outros) 
com os mais mesquinhos (consumismo, falsidade, agressividade).

Mas pra tudo temos soluções. 
Ou paroxetina, fluoxetina, sertalina 
ou, 
graças a deus, 
o Reveillon.
Aí todo mundo solta a franga e libera a bagaça: negócio é beber até cair.

Nada de pensar ou recomeçar. Nada de mudar.
Vamos às compras e comidas.




Para mais um pouco: A origem do Papai Noel


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mamam

Il me manque maman

Sinto falta do seu cheirinho
do seu abraço
do seu toque

sua voz
e seu olhar

Voz baixa

Muitas coisas agradáveis me lembram minha mãe

sua voz
seu cheirinho
seu olhar


mas a mais profunda
é que minha mae não grita

Nunca grita.

Fala baixo.

Sempre.

Proesia

Quando falta poesia 
sufocados no prosaico 
a vida fica dura 

não é preciso um poeta profissional 
uma grande reviravolta 
um momento artificial

um olhar 
um sorriso 
um abraço 

uma folha que se agita verde ao vento 
uma borboleta que pousa azul 
uma flor que se abre amarela 

um operário realizado 
uma mulher grávida 
um goleiro que ama seu time 

nos remetem ao prosaico 
onde a poesia é mais pura.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Amor e Sal

Doce e verde mar de amor que invade minha alma de sal. Minha vida um oceano de felicidade. Com você.


Para Tom, meu amor.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Livre

Meu pai um dia escreveu,
no poema em que redigiu para mim, quando fiz dezoito anos:

" Não sei se não matei 
o pássaro irreverente 
que se atrevia a tentar passar pelos arames"

Meu pai conheceu minha alma de maneira profunda.
Mais que profunda. Me entendeu nos meus mais contraditórios movimentos.

Ele acertou na mosca quando percebeu "o pássaro irreverente" que habita em mim e me impulsiona.
O meu desejo de liberdade me arrebata e me dá o posicionamento no mundo. A partir dele eu me relaciono, eu me entendo. E se quero voar, não quero só para mim. Quero todos. Vislumbro todos pássaros capazes e livres. Minha liberdade, no entanto, não é libertina. Ela  tem o peso da leveza da responsabilidade. Eu, como todos, somos responsáveis pelas nossas escolhas. Poder escolher e assumir é o que faz brilhante minha vida.

No entanto, meu pai talvez não tenha percebido que ele não matou o pássaro. Essa dúvida ele não precisaria ter.
Ao contrário, ele criou em mim o pássaro da liberdade. E me ensinou a reconhecê-lo.

Mostrou-se que ser livre é crescer.
Que o mundo adulto é a liberdade com responsabilidade que meu pássaro deseja, sempre.
Suas escolhas me inspiraram.
Seu caráter me moldou.
Sua disponibilidade para discussões me enriqueceu de conceitos.
Seus valores ampliaram o meu.

Eu cresci livre.
Eu posso escolher e, o mais importante, assumir minhas escolhas.

Sua passarinha, pai, vive livre e irreverentemente ultrapassa os arames. Com responsabilidade.
Obrigada. 









Poesia no caos

Parada no farol, eu cantava ao volante.
Do meu lado, uma viatura policial.

"A senhora canta muito bem."

Olho para o lado: dois policiais. 
Um moreno, cara rechonchuda; o outro bem claro, de aparelho nos dentes.
Os dois de óculos escuros.

Quando me virei para eles, dois sorrisos largos me receberam.

"Obrigada".

"É é afinada."

"Que bom que gostaram..."

"É bom pra relaxar ouvir uma voz assim ..."

" Realmente, vocês precisam mesmo de momentos relaxantes.Desejo a vocês um bom dia de trabalho."

"Pra senhora também".

Novos sorrisos iluminam nossas vidas.

O farol abriu.

Talvez, alta probabilidade, nunca mais encontrarei esses dois jovens, fardados. Cheios de sonhos, de vontade de trabalhar, de ouvir música. Como meu filho. Como nossos filhos.
Não é possível que uma sociedade permita tanto o preconceito contra uma categoria profissional, quanto o assassinato "alvo fácil". O policial mostra-se, fardado. O assassino espreita e atira escondido. sempre pelas costas.

Numa guerra civil como a nossa, me emociona ver dois meninos trabalhadores que ainda percebem um momento de poesia na dureza da vida no fio da navalha.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Poema da curva

Não é o ângulo reto que me atrai
Nem a linha reta, dura, inflexível,
     criada pelo homem.

O que me atrai é a curva livre e 
     sensual.

A curva que encontro nas
    montanhas do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas nuvens do céu,
no corpo da mulher amada.

De curvas é feito todo o universo,
o universo curso de Einstein.


Oscar Niemeyer

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

AULA DE QUÍMICA




A Química, disciplina na qual nunca fui muito boa (eu achava), pode ser definida como a ciência que busca compreender os mistérios da matéria, sua organização e energias envolvidas nas transformações. Coisa mais área de humanas, não é? Não é. 
Mas parece.

Os químicos tentam explicar o mundo que nos cerca. Coisa mais filosófica.
Matéria, na química, é o que ocupa um lugar no espaço e possui massa. 
Coisa assim como gente. 

E é formada por átomos, aqueles indivisíveis que nunca estão sozinhos, descobertos por Demócrito, 400 a.C. A Química estuda a interação entre os átomos. 
Quase terapia. 

Energia química é aquela que acontece entre os átomos. Igual àquela quando a pessoa amada entra no campo de visão.

Aí sim... tá rolando  uma química.

Mãos suando, coração acelerado, respiração pesada, olhar perdido, enrubescimento, perda do chão, felicidade.

Sintomas causados por um fluxo de substâncias químicas  no corpo da pessoa apaixonada. Noradrenalina, dopamina, serotonina, oxitocina, adrenalina, endorfinas: hormônios da sensação do amor.

Dopamina, felicidade.
Adrenalina, coração a mil.
Serotonina: poder.
Noradrenalina: sexo
Ocitocina e vasopressina: graças a esses dois, uma atração fatal pode evoluir para uma relação segura, tranquila e duradoura.

Ou como resumiu minha manicure: 
”to com meu marido há 11 anos e cada vez eu amo mais ele”.

Eu, que acredito num claro futuro, onde os relacionamentos amorosos possam tenham durabilidade, com afeto e prazer, recebi uma verdadeira aula de química profunda.

Talvez eu não seja tão ruim na matéria.







quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Elas estão descontroladas!


Rousseau, meu amigo, venho refletir contigo sua dedicatória do Emilio para a boa mãe que sabe pensar. Um livro doce, sobre a educação de um menino, para tornar-se mais que cidadão: homem.
As mulheres sempre foram alvo de controle social. Você sabe. 
Na luta para livrar-se desse controle, a mulher, mais especificamente a mãe, endoidou. 


Hoje não há mais aconchego.
Elas estão enlouquecidas trabalhando. 
Precisam ganhar dinheiro, muito dinheiro, pois não se suporta, nem homens nem mulheres, menos consumismo. Querem ser colegas. Não são mães. 

Hoje não há mais carinho. 
Elas estão enfeitiçadas e grudam nos filhos e filhas numa ânsia de juventude perdida. Querem ser amigas. Não são mães. 


Hoje não há mais colo.
Elas estão enfurecidas contra tudo e contra todos. Numa família, quando havia discórdia, geralmente a mãe era o colo. Hoje, ela quase sempre é a causadora do problema. Querem ser justiceiras. Não são mães. 


São mulheres intolerantes com sua própria condição feminina: “queria ter nascido homem”. Não há mais período fértil por que sufocam a menstruação. Sem períodos, mais, nenhum. Não há progesterona. Não são nem fêmeas, nem mães.

Os homens, silenciosamente, e talvez um pouco assustados, continuam fazendo as mesmas coisas, até mesmo algumas cafajestadas, mas se preocupam, um pouco, com a família, a casa. Trocam fraldas. Levam na escola. Reuniões de pais. Alguns assumem inteiramente a função de gravata. Por que mãe está sumida. Do mapa. Falam em divisão de tarefas, direitos iguais, mas, somem no mundo ou no trabalho e cobram - descaradamente - principalmente do homem, tudo. Tudo é tudo. Não é dividir. Dividir é dividir. Tudo. 


Infantilizadas, estabanadas emocionalmente, irresponsáveis, esperneiam. Querem.


Estridente, o feminino perde-se numa gritaria sem fim: estraçalham com tolerância, afeto, calma, paz, tranquilidade, compreensão, gratidão, cooperação.
Se a sua não é assim, erga as mãos para o céu e agradeça. 
As mulheres podem ter conquistado muitos direitos. Mas como mães 
elas estão descontroladas, meu amigo. Coitado do Emílio. Não há mães, quanto mais que saiba pensar. 
Mas dos males o menor: mãe é uma só. 

Graças a Deus.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Peixe voador do futuro

Eu acredito tanto num claro futuro
Numa comunhão de pessoas
amores vividos
vívidos
presentes

que 
me sinto
peixinha fora dágua

Mas
ainda assim
eu acredito num claro futuro.

Prefiro acreditar 
a me render a esse medo
intermitente

Eu acredito num claro futuro.
Pessoas felizes
Harmonia
Paz
Amor
Convívio.
Acredito. 
E pronto.

Eu sou 
fora dágua
peixe? que nada:

voa!!



Psicologia

EU NÃO TENHO TRAUMAS.


EU TENHO HISTÓRIAS.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Eis a questão

Não é o amor que tem prazo de validade.

É a paixão.

Na luxúria, desejo ardente, aumento da libido.
Na atração, envolvimento emocional e romance, pouca serotonina.
Na ligação, atração que vira relação calma, duradoura e segura, muita ocitocina.

Ocitocina é liberada com abraço.

Abraço é para sempre.
Não prescreve.



O problema é que a gente nunca sabe ao certo onde colocar o desejo. Paixão ou amor: eis a questão.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Santo remédio


Existe alguma coisa de atemporal no tempo.

O relógio digital eliminou os segundos:
o espaço onde a vida acontece.

Tudo agora mesmo pode estar por  um segundo.





E é ali, nos segundos, que a vida pede um pouco mais de calma.




Passa tão depressamente devagar o dia chato.
E o momento de prazer, expressamente.

Como é lindo um homem maduro, grisalho. Seguro.
Como é lindo o menino desabrochando em barba e tesão. Impulsivo.




Tenho medo do tempo, que ele leve embora beleza, consciência, agilidade.

Eu levo na flauta. O tempo musical é intemporal. Não acontece nem nos segundos, nem nas horas, nem nos anos. Acontece. Pulsa. Ali eu moro.
No andamento que a música me traz, eu ganho paz, maturidade, paciência.
Num espaço de silêncio, que escapa e invade.

O tempo cura.
Nada mais eu preciso.

sábado, 14 de julho de 2012

Poucas palavras




Enfezado.
Aquele cara bravo tem intestino ruim.

Desastrado.
Aquele que não olha os astros e faz as coisas sem atenção.

Entusiasmado.
Aquele que traz Deus (in theos) nas suas ações.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

She´s back!

O simples:


Obrigar, legalmente, os supermercados a fornecerem sacolinhas ecologicamente corretas.






O complicado:

Fazer leis na base do teste empírico.




Como solidificar cidadania 
na base da Lei de Gérson, 
ou da Lei que não Pega?

Resistência Chique

Todos meus amigos são chiques.

Três deles, 

Daniela Savastano 
Gustavo Gonçalves 
Nira Priore 

e meu  namorado
Hamilton Penna



são trop chic:

Ils n'ont pas facebook.

Pas encore.


Chiques para sempre.
Resistentes, até quando?





Homenagem prévia, para que não seja póstuma.
Um dia, todos sucumbirão ao facebook.
É meu temor.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Rousseau 300


Pô, Jean-Jacques...

Não precisa mandar tanta mensagem no meu celular. Nem quero ver como está meu tuíter. Calma... Eu não esqueci que hoje é seu aniversário.

Tantas pessoas devem estar te parabenizando ou rezando para que morra. Sim, por que você, apesar de morto, inferniza a vida de muita gente. Das feministas alucinadas. Dos alucinados que te veem como fascista. Dos teus colegas pensadores que não sabem muito bem aonde colocar o desejo. E teu filho, que não recebeu um afago seu sequer e ainda teve que conviver com aquele seu Emílio. Foi sacanagem da sua parte, isso, mas deixa pra lá... hoje é dia de festa. Não vamos discutir a relação entre você e seu filho.

Do meu lado, te admiro. Chegar tão vivo e lúcido aos 300 anos não é para qualquer um. Apesar das suas rabugices, o que te salva é tostar os preconceitos e assumir-se como um paradoxo. Isso me acalma. Lembro, quando me vejo confusa, querendo bijuterias douradas e prateadas, não sabendo escolher, lembro de você. Finalmente posso expor-me totalmente paradoxal, como sou.

De novo esse assunto, do Voltaire? Não fica com ciúme... isso na sua idade fica bizarro. Você sabe que curto o Voltaire, me dou bem com ele. O cara é democrático à beça. “Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei  até a morte o se direito de dizê-lo”. Jean, eu sou gêmea dele nisso. Compro a briga da palavra dita, escancarada, mesmo que divergente da minha. Ou melhor: mais ainda se for dissenso. Você nunca ouviu  falar que as mulheres conseguem amar pelo menos três homens ao mesmo tempo? Um é para a alma; o outro, para o corpo; e o terceiro para corpo e alma.

Ah! Não... Não vou mesmo dizer agora quem é do corpo, quem é da alma, quem é do corpo e alma...

Quero mesmo te dar parabéns pela coragem do Discurso sobre as Ciências e as Artes, que nos coloca a crítica sobre as “benfeitorias” da arte, pela clareza do Discurso sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens, que nos arrebata com seu “discurso do rico” e, também, pelo Contrato Social, que nos coloca sempre na posição ativa do consentimento. Entre tantas outras belezas.

Você, Rousseau, é o cara.
Parabéns, meu amigo.

Nem preciso desejar muitos anos de vida, por que você não morre. 
Ao contrário, sempre iluminado, meu iluminista preferido.



Mas é o seguinte: 
se quiser mesmo comemorar hoje à noite na gafieira, 
dá uma atualizada nesse visual. 
Pelo menos no cabelo.
Tá de doer...

"Rousseau a nourri toutes les révolutions"


quinta-feira, 21 de junho de 2012

Jogo limpo


Eu sou palmeirense.
Mas não sou anti-corinthians.
Menos ainda anti-corintianos.
Eu fico contente que o Corinthians tenha conseguido ir além do  já conquistado.
Esporte é isso: superação.
Equipe.
Desafio.
Vontade de vencer.

Sou, sim, anti-violência.
Seja de que forma for.
O que ganhamos, como cidadãos, com a piada, sem graça: 
“90 minutos sem roubo em SP”,
 fazendo alusão ao fato de os corintianos estarem lá, todos, assistindo ao jogo?
Isso é violência.

Política, religião e futebol não se discute?
Discute-se sim.
Já é hora de  discordar com elegância e a aceitar, verdadeiramente, a dissensão.

Seu time perdeu?
Sofra. Chore. Grite. Mande tudo à merda. É seu direito.
Afinal, o Santos parece ser o segundo time de muita gente. O Santos é o time do Pelé. Quem  gosta do Pelé, gosta, de algum jeito, do Santos.

O Neymar vai torcer para o Corinthians. Pelo menos foi o que ele disse.
E disse bem. Deu um chutezinho em favor da educação.


Faço minhas as palavras de Voltaire, “posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo.” Ou de torcer para o time que quiser, seguir a religião que bem entender, votar conscientemente no político que escolher. Sem que isso seja motivo de violência, para mim ou para você.

No MASP, com Rousseau



 
Amigo Rousseau, 
vou lhe contar, com detalhes, uma tarde, deliciosa, que passei no MASP, aquele museu que você já conhece, mas esqueceu. Você tem se comportado como um velho, apesar de seus 300 anos...

Uma tarde que  foi um bálsamo para os meus cinco (seis) sentidos.

O almoço, leve e lindo, estava uma delícia. A sobremesa, nem posso comentar senão engordo de novo. E sei que vai me criticar, por que considera que a “gulodice é o vício dos corações sem fibra”. Desculpe, foi irresistível.  Se só é possível filosofar em alemão, é impossível diante de uma mesa farta.

Como te conheço, e sei que acredita que existe uma correspondência entre o paladar e o olfato, já aproveito o assunto pra te contar que o cheiro daquele lugar era sutil. Por isso, muito agradável.

Não havia música ambiente. Pude ouvir o silêncio. Além dele, alegres e gentis palavras. Meus ouvidos não identificavam tudo, mas ouviam. Sim, eu sei, que a audição é o mais completo dos sentidos, sob seu ponto de vista, mas o que posso fazer se minha alma estava escutando além dos meus ouvidos? E encantando-se. A musicalidade das palavras substituiu os elementos do discurso.

Eu, que ainda não aprendi a ver, gostaria muito de ter tocado os quadros, as obras de arte expostas ali. Eu queria muito ter sentido aquele quadro vermelho do Modigliani que acordou meus olhos. Ou o Rosa e Azul, tão brilhante de perto, cheio de relevos... Eu não pude tocar as obras, mas nem por isso, a pele, ou a sentinela contínua, como você a chama, ficou esquecida. Eu fui tocada. Ela, espalhada por toda a superfície do corpo para advertir de tudo que possa ofendê-lo, relaxou. Sentiu-se bem. É, Jean-Jacques... aqui concordo inteiramente contigo... tudo que o tato percebe, percebe-o bem.

Meus olhos em festa. Uma festa que pouco a pouco foi me envolvendo e eu não sabia mais quem era real: eu ou aqueles seres fantásticos. Realmente, é preciso muito tempo para aprender a ver. Se para você, amigo, a visão é, de todos os nossos sentidos,  o mais falível, exatamente porque é o mais extenso, eu corroboro: eu me perdi, Rousseau, na sedução rápida do olhar.

Mas não me arrependo, Jean.
Estive em festa nos cinco sentidos.
E o sexto, minha intuição, acordada.

Agora sei por que aquele museu se mantém suspenso.
Pelos sonhos que desperta.




Nair



Minha querida e bailarina amiga, Nira, está no Brasil.

Que gostoso abraçá-la, sentir seu corpo, seu cheirinho. 
Uma bailarina de primeira, baixinha, de pernas grossas, valente.

Lembro  de nós duas na Praça do Pôr-do-Sol, antes de ela ir para a Alemanha.
Lembro  das tardes na sua casa, em Guarulhos.
Nossas confidências. 
Nossos amores. 
Nossos instrumentos da banda sendo lustrados. 
O meu, um par de pratos, e seu, um bombardino. 
Nunca entendi como conseguia soprar aquilo, sendo tão pequenina.

Sua irmã, a Irna, também minha amiga, veio dos Estados Unidos...
Passamos também bons momentos juntas...

Lembro de sua mãe, D. Nair, sempre agitada, querida, cuidando de tudo e de todos.
Ela foi minha mãe substituta. 
Sua casa era minha. 
A qualquer hora.

Além de mãe, foi maestrina.
Foi minha primeira maestrina. Ensinou-me a cantar em coral e a tocar em orquestra. Alegre, em vocalizes ao piano, tentando afinar corações enlouquecidamente desafinados.
Meu Deus, o Fernando, meu namorado, era surdo, eu acho.... 
Não afinava nem bom dia...

D. Nair está na UTI.
Nira, Irna, Inar, Hércules... tristes.

Mas ela não pode estar ali. 
Há muitas músicas a serem tocadas, muitos Fernandos esperando a afinação, muita alegria a sair de seu sorriso.

D. Nair, volte logo.
Por favor.

Nira, minha querida bailarina, sente-se no meu colo. Como hoje à tarde.
A gente chora junto. 
Irna, Fique comigo.
Eu amo vocês.
Eu amo sua mãe.
Nossa mãe.


sexta-feira, 15 de junho de 2012

Regarde

Mãe, 


olha bem nos meus olhos:




e ouve:



eu estou com muita saudade de olhar os seus

















Ma fille chérie
Le jour de ton arrivé dans ce monde et dans ma vie
est si proche dans ma mémoire
Qu'il me semble que c'était hier
quelques années se sont écoulées depuis
Et c'est toujours avec nostalgie et bonheur que je revois ce moment


Où je t’ai prise dans mes bras 
N’en revenant toujours pas 
D’avoir une merveille comme toi 
Et pourtant tu étais là 
Bien à moi 
Depuis ce jour du 21 novembre
Mon univers a basculé 
Dans un bain de tendresse 
Et la vie a passé 
Aujourd’hui tu es une femme 
Mais je ne peux m’empêcher 
De penser à toi comme mon tout petit bébé 

je t’aime 
Maman





Je t'aime aussi.
Muito.



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Queria ser uma "dessas mulheres"...




quinta-feira, 17 de maio de 2012

Arco-iris

Existem coisas inexplicáveis.










Como conhecer uma pessoa, há pouco, pouco tempo e simplesmente amá-la de um amor infinito.


Uma pessoa linda.
Generosa.
Sorridente.
Feliz.
Aconchegante.

Uma voz doce, de menina.
Uma menina de coração numa alma grande de mulher.

Uma alegria tamanha que não cabe nas hipocrisias sociais.
Uma alegria subversiva.







Essa dama atravessa minha vida e invade meus domínios.
Todas as palavras para mim são de afeto.



Come minha berinjela. Conheço seu varenik.
Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia...

Ganhei irmã cósmica.
Sobrinhos planetários.
Uma família universo.
Uma amiga coloridamente alegre.

Hoje nos mostra de forma inquestionável sua festa no céu: um lindo arco-iris, forte, intenso, inacreditavelmente subversivo num farol da cidade cinza.



Muitos mistérios...mas você, minha querida Sônia, que amo de montão, brilha.
Sem mistério algum.

Brilha e nos embala.Nos carrega na dança colorida de sua vida eterna.
Onde quer que seja.

Sempre viva.

Para as coisas inexplicáveis, às favas com as explicações.
Pois elas existem. E fazem a vida valer a vida.




quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cristal


Se você tem namorado, marido, ficante, você está na mira: você anda vai ter sua piriguete, ou mais de uma delas, na sua cola.

Essas moças, de autoestima inexistente, vivem de destruir o que não tem. Não é fácil manter um relacionamento. Envolve afeto e, acima de tudo inteligência. Outro quesito que, na vida delas, se resume à marquinha do biquíni: que fique aparente no shortinho.

Corre à boca pequena que as mulheres competem com as mulheres. Isso definitivamente não é verdade. As mulheres são extremamente solidárias, amigas. Há um código de ética de afeto que rondas as relações femininas. As piriguete são os vampiros de saias. Sugam, destroem e não sabem se relacionar. Por isso não as aceitamos.

Por isso elas não se aceitam como tal.

Entretanto, a maior destruição que causam não é, exatamente, bagunçar o seu relacionamento, cultivado com carinho, dedicação, como uma flor delicada.
A carruagem vira abóbora quando se percebe que aquele príncipe que estava ao seu lado, caiu do cavalo. A piriguete mostra que ele , assim como ela, tem autoestima ínfima. Ele, sim ele, precisa ser alimentado com migalhas falsas e... mentirosas...se sente valorizado se aquela bundinha durinha bronzeada olha pra ele. Ele, justo ele, se contenta com migalhas. Ele, que era tão especial, que vinha naquele cavalo branco e transformava sua vida num conto de fadas, diário.

Na verdade, se você tem uma piriguete na sua cola, eu digo: que abriu o espaço foi ele. Se a  energia dele estivesse focada no relacionamento com você, se ele gostasse dele o suficiente para só admitir garotas de alto nível (como você, como eu) ao lado dele, se ele fosse um príncipe mesmo, poderíamos contratar uma consultoria especializada e não seria achada, nenhuma conversinha mole no MSN, nenhuma cutucada “ingênua” no facebook nenhuma ligação desconhecida no celular.

Entretanto, nada na vida é imutável.


Enquanto isso, amiga, eu sei: a dor da desilusão de vê-lo com mais um homem comum vai estraçalhar o peito. Mas para toda regra existe uma exceção: existe sim homem com autoestima suficiente pra ser um espanta-piriguete.  O andarilho pode, sim, esforçar-se e retornar ao seu posto de príncipe alado em seu cavalo branco. Depende dele. Da energia dele. Da autoestima dele. Ele pode sair da lama, se quiser.

Vocês ainda se encontrarão.


Ele vai entregar o coração sem reservas...Por que ele se ama intensamente. Pode amar alguém, e não viver migalhando...



Eu estou torcendo por isso.




                                                                                                                     E, se ele tiver um amigo...



quarta-feira, 11 de abril de 2012

Psicólogos do Trânsito



Na segunda-feira passada, indo para minha aula de gafieira, fui submetida à intervenção dos Psicólogos do Trânsito.


No farol do cruzamento da Paulista com a Consolação, os carros parados.
Aparece um bando de palhaços, com jalecos "Psicólogos do Trânsito".






Pediam abraços.
Distribuíam abraços grátis.







Abri minha janela e abracei o melhor psicólogo que já tive.


Os motoristas e passageiros dos outros carros abriam as janelas também.


E também sorriam.








Eu puxei um buzinaço.
Buzinamos, dessa vez, de alegria no trânsito.










Foi um momento curativo.
Ascultado os motores, a vida pode, sim, ser mais doce em São Paulo.
Inclusive no trânsito.








Rir é o melhor remédio. Mesmo!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Validade: indeterminado

"Amor tem prazo de validade. Pra uns é dois meses, pra outros dois anos, vinte. Mas uma hora acaba."


Eu não acredito nisso.
Que uma hora, de forma determinista, acabe.


Acaba, ao meu ver, por motivos como:
a arrogância que supera o entendimento
o egoísmo que fala mais que a compreensão
a surdez que se alterna com o silêncio ferino
a desconfiança de um que se alimenta das mentiras do outro
a incapacidade de manter-se indivíduo e 
ao mesmo tempo entregar-se.


Acaba pelo apego às falhas, por não querer enxergar-se, e crescer.


Eu acredito no amor com prazo de validade indeterminado.
Eu acredito no amor que se constrói no dia-a-dia,
com carinho, atenção, respeito, honestidade, compreensão, tolerância, limites.


Com verdade.


E me sinto um peixe fora dágua.
Mas eu não nado: vôo.


Então não me importo.
Sonho esse amor, aqui nas estrelas.

domingo, 18 de março de 2012

Em que pé estamos?

O Everson, professor de dança, juntamente com a linda Luisa - fiz com eles Tango, Gafieira e, agora, o  curso de Condução Masculina,  sempre repete uma frase:


"O homem precisa - precisa - saber em que pé a dama está".


Num momento da aula , hoje, ele pegou uma senhorinha pra fazer o "peão", com ele. Peão, como o nome sugere, é um movimento de giro. Precisa equilíbrio, coordenação e entrosamento, dos dançantes.


Ela ficou apreensiva em dançar com o professor. (Quem não fica?).


Ele percebeu e disse:
"Ela já está nervosa, antes de qualquer coisa. Estou aqui, acalmando-a, percebendo-a e deixando-a tranquila".
Fazia, enquanto isso, o passo básico, com ela.
De repente, os dois faziam o "peão", lindamente. 


Ela sorria. Transbordava felicidade.


Os cavalheiros precisam saber que nós, damas, estamos inteiras na mão deles. 
Nosso corpo, nossa alma, nossa emoção. Estamos nos deixando conduzir. Isso não é fácil e nem simples.


Os cavalheiros precisam  saber em que pé as damas estão, para nos levarem, com delicadeza, sem trancos, aos deliciosos passos caminhados juntos na dança. Se estamos apoiadas no esquerdo, levem-os para a direita, senão tropeçaremos na nossa entrega. 


Mas, muito mais que saber que pé nosso está no chão, o cavalheiro precisa saber "em que pé estamos": se calmas, ansiosas, nervosas, tensas e acolher. 
Acalmar.


Antes de qualquer passo, o encontro.
O braço firme nas costas e a sensação de que estamos protegidas. De que nada nos fará mal.
Nem um salto deseducado atingirá nossa canela, nem um passo afoito do nosso parceiro e, principalemnte, nenhum desafeto emocional.


Num dos bailes de forró que quase sempre vou aos domingos, dancei onze músicas com um rapaz que não sei o nome. Eu e minhas amigas o apelidamos de "Trancinha", por causa do cabeço.


Foram onze músicas de corpo colado.
Um sentindo o outro.
Não fizemos giro. Nem passo, Nem nada.


Ele e acolheu e dançamos.
O tempo do mundo parou e só existia o tempo da música.


Dança é isso.
Pra mim.