quarta-feira, 12 de agosto de 2009

BOCA NO TROMBONE!

O homem quer ser mais que apenas ele mesmo. Quer ser um ser total. Anseia uma plenitude que sente e tenta alcançar. Se fosse da natureza do ser humano não ser ele mais que um indivíduo, tal desejo seria absurdo e incompreensível, pois como indivíduo ele já estaria então pleno, já sendo tudo que seria capaz de ser. Esse desejo do homem de se desenvolver e se completar indica que ele é mais que um indivíduo. Que almeja ser cidadão.

Para conseguir ser um artista é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção não é tudo: ele precisa saber tratá-la, transmiti-la, conhecer as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a Natureza se sujeitada à concentração da arte.

Nesse mundo alienado em que vivemos a realidade social precisa ser mostrada no seu mecanismo de aprisionamento e de aculturação. A valorização da cultura é a raiz forte e profunda da evolução de uma nação.

A arte é necessária para que o homem se torne capaz de conhecer e mudar o mundo. Mas também é necessária em virtude da magia que lhe é inerente.

A função da arte



A ARTE É O MEIO DE UNIR O HOMEM À PLENITUDE.

PAZ INTERIOR

Que dizer da guerra?

De qualquer tipo de guerra. Inclusive as cotidianas.


Assim como o príncipe de Maquiavel, o guerreiro sabe que a ferocidade do espetáculo faz o povo ficar ao mesmo tempo satisfeito e estarrecido; matar de modo espetacular ergue o reinado do medo, uma pacificação total, pois quem irá contra o poderoso? Ou, como o Soberano de Hobbes, dá conforto e preserva-se pelo medo também?

Mas quem ousaria dizer-se diferente?
Quem dentre nós sabe-se equilibrado, prudente, moderado?
Quem quer ser considerado pusilânime?


Os deuses primeiro cegam àqueles que querem destruir, segundo a mitologia grega. O herói trágico erra pelo excesso de querer acertar. Sua hybris, seu destempero, em querer ir até o fim pode cegar como fez a Édipo, que fugindo do destino cada vez mais estava nele. A sensação de sentir-se menos, humilhado, ultrajado, cega. E é preciso lutar.

Mas nós, mortais, cegos por vezes como semideuses, por motivos bem menos divinos: medo, ódio, orgulho, vaidade, hostilizamos. O bushismo, atacar para se auto-afirmar, muitas vezes pode estar em casa. Quem nunca usou de autoritarismo, leia bem, digo autoritarismo e não autoridade, dentro de casa ou no trabalho? Quem nunca agrediu com palavras? Com gestos? Com olhares? Com silêncios?

Quem nunca abusou do poder?
Quem?


Muitas manifestações de paz pelo mundo. Na base de pedras, agressões, raiva, ódio. Policial que tem por função defender e proteger, atacando. Pessoas invadindo embaixadas. Homens-bomba explodindo. Tudo pela paz. Tudo pela paz?


Esta guerra que acontece ao vivo em cores, com hora marcada, como um espetáculo criteriosamente ensaiado e dirigido, é, ao mesmo tempo, vergonha nessa altura da civilização e ocasião para reflexão, principalmente autocrítica. Como o ideograma oriental que traz em si a crise e a oportunidade. Que seja o momento da busca imediata da paz interior, como reflexo do que se deseja ao mundo. À nossa Terra, mãe que crê em filhos amorosos. Busquemos o retorno: natureza e não ecologia; infância e não pedagogia; desejo e não sexualidade. Menos cientificização e mais vida. Menos tecnologia e mais humanidade. Ou estamos na Era da Caverna Cientificizada?
Por um momento espero que cada um se responsabilize pelo abstrato que é a humanidade e faça sua parte. Eu tenho vergonha de fazer parte deste instante histórico e proponho: paz interior.
De verdade.

O esteta

Defender a regionalização cultural pode ser facilmente comparado com "bairrismo". Mas não é.

O bairrismo hostiliza ou menospreza tudo quanto se refere aos demais: só que é meu (ou o que eu conheço) é o melhor. O outro, o diferente, o desconhecido, o novo, não merece nem mesmo consideração. Já escolho logo o que conheço, escolhendo, em última estância, eu mesmo, e estabeleço uma estética da ignorância, do provincianismo, da mesmice, de um tipo de fascismo e racismo. Num exemplo cotidiano: se a minha tia, meu irmão, minha escola está lá, numa apresentação artística, por exemplo, é o suficiente para que a coisa em si seja boa. Para que eu a escolha como boa. E no interior é quase impossível não acontecer isso.

Esse tipo de escolha é o mesmo caminho que sustenta seu oposto: a "globalização" da cultura. São roupas, informações, modos de viver, que se assume como próprio (olha o meu aí de novo) , negando o outro. Nessa suposta derrubada de fronteiras o que se faz é o contrário: ergue-se uma estética alienante cercada de auto valor por si mesmo. E só.

Mas então o que seria "regionalizar" a cultura? Seria começar um processo de auto-valorização verdadeira. Reestruturar-se a partir da única base honesta para a estética: a qualidade. Ela é que deve prevalecer na experiência sensível da arte e não o critério mesquinho de "se conheço, eu gosto, se é meu, eu gosto". Seria desprender-se de valores egoístas e mesquinhos e buscar a profundidade da experiência cultural.

Mas isso implica em esforço. E muito. E de todos.
Requer, antes de tudo, coragem para mudar.


Deixar de acreditar na mesmice - que paralisa, e dá uma certa idéia de conforto e partir para a ação. Acreditar que há muito que eu não conheço e pouco que tenho feito. É parte da sociedade agregar valor à estética, mobilizar-se em formas de apoio cultural (comerciantes, empresários, profissionais liberais, industriais) o que seria a carta de alforria da cultura em relação ao "mercado cultural" - que de cultural não tem nada. Seria jogar-se num imenso propósito de unir professores, empresários, artistas, em busca da qualidade. Abrir portas para a possibilidade cultural. Colocar um grupo de teatro, de música, de artistas em cada escola, clube, praça.

Exigir a construção de teatros, cinemas e livrarias para a cidade com o mesmo empenho que se exigem escolas, hospitais e creches. Exigir das televisões um mínimo vínculo com a realidade que se vive e não aceitar passivamente a novela sempre estrangeira ( seja mexicana ou carioca).Tudo isso é essencial para completude do ser humano, da cidadania. Preservar o artista, fazendo de si um mesmo. Fazer cursos de arte, ir a centros culturais, cinemas, ler.

Não se é humano sem arte. Ou se é apenas corpo.

Regionalizar a cultura é partir para a estruturação de um país melhor. É mudar o arquétipo do caipira burro, ignorante, iletrado, de modos rústicos, para o ser humano integrado com a natureza, com seus sentidos abertos para entendê-la, percebê-la, senti-la. Como uma pessoa que adota uma atitude requintada com relação à arte e à vida.

Regionalizar a cultura é acreditar que o caipira não é um bronco, mas um ser ligado essencialmente à experiência dos sentidos.
Um esteta.

Musicar

MUSICAR
(CONTRA O HORROR AO SILÊNCIO)


“Toda relação bem sucedida pode ser chamada de musical”
(Roland Barthes)



A indústria cultural, a cultura de massa, favorece no domínio da música em particular, o excessivo desenvolvimento de apenas consumir, em prejuízo do autêntico ato de musicar. O consumo em massa promovido e divulgado pela mídia, consegue refrear o desenvolvimento da cultura popular. O homem massificado adquire verdadeiro horror ao silêncio, precisando consumir, aqui musicalmente, continuamente. Quantos de nós já não presenciamos ou protagonizamos aquela fuga para o relaxamento – num sítio, fazenda, montanha – e demos de ouvido com aquele som infernalmente alto e ruim que vinha daquele carro equipado em aparelho de som? Ou numa compra em supermercado com som de uma rádio FM que de vez em quando toca um música (chata), nos intervalos de um locutor enlouquecido entre suas palavras sem fim e ruídos intermináveis? Ou naquela loja, experimentando roupa, a música contínua e péssima? Concessionárias em dias de “promoção”. Inaugurações. Festas em escolas: músicas que nem adultos deveriam ouvir! A música parece com uma cortina: ninguém repara, só quando tira. Ninguém ouve essa poluição auditiva. Ao menos conscientemente. Já pedi muitas vezes para abaixar o som de lojas e percebi o espanto: afinal, “nem dava para ouvir. E anima tanto...”
Quantas pessoas conhecemos que gostam de algum instrumento, que queriam tocar violão, saxofone ou cantar? Mas é tão difícil... O ensino de música nos Conservatórios é voltado para a formação de profissionais, tendo a preocupação principal dirigida ao treinamento instrumental ou vocal, e em segundo plano os cursos de composição. O intérprete musical – virtuose, técnico – libera o ouvinte de qualquer atividade e anula a possibilidade de produzir. As execuções das obras-primas tornam-se mais importantes que o simples ato de musicar, acessível, em princípio, a todos, tornando a música um consumo passivo. Há a cisão na música: a música que se escuta e a que se executa.
Retomada urgente da música como atividade criadora, e não apenas como uma mercadoria a ser consumida por uma massa amorfa!
É preciso desaparecer com a oposição artista x público. Recolocando o homem, em essência um ser criador, em posse integral de sua natureza criativa. Quantas pessoas já não ouvimos dizer (talvez nós mesmos já o tenhamos dito): “Eu não tenho voz boa para cantar”! É a máquina consumista impondo lamentáveis padrões vocais. O importante não é Ter uma voz assim ou assado, mas descobrir as possibilidades vocais – musicais - de cada indivíduo.
A prática musical nas escolas é incomensuravelmente mais importante que o ensino acadêmico e endurecido de um Conservatório, que visa formar profissionais. É preferível o amador: aquele que ama, e produz. O técnico às vezes está alienado inclusive de si mesmo. De sua potencialidade criadora, julgadora e ativa. A prática que vem pela escola vem acrescida dos hormônios, dos amigos, do amor, da descoberta. Não há notas, séries, provas. Apenas o mais importante: fazer. Não é só o esporte que pode ser antídoto para uma série de males que afligem nossas crianças e adolescentes: a música , dança, teatro, poesia também. Desde que em moldes de criatividade, de produção, de posse e não de imposição.
Regionalizar a cultura musical é diversificar. Aceitar o amador e a diferença. Trazer para as escolas, para os ouvidos que estão se formando, além da música de conservatório, a beleza da música regional, suas peculiaridades e, principalmente, sua forma de ser feita. Formar bandas e tocar nos coretos.
Tente um exercício extraído do livro “O autoconhecimento através da música”, de Peter Michael Hamel deite-se num lugar silencioso. Respire conscientemente. Aos poucos imagine a vogal que sente estar mais próxima de você. Com o tempo descobrirá qual é a “sua” vogal. Com muita cautela, pronuncie esta vogal. Não se preocupe se surgir um som “feio”. Não o modifique para um bonito e cantado. Deixe sair como sair. Repita vários dias. Após um certo tempo, começa-se a cantar sempre numa mesma altura. Você descobriu seu som próprio! Cante-o.
Musique seu próprio som.

Música à vista!

Quando Cabral descobriu o Brasil, gritou:
“- Música à vista!!”
O que, a bem da verdade, foi um santo remédio para ele que andava meio enfadado.

A tripulação se agitou não se sabe bem se por causa da variedade de sons ou por causa das “índias” a balançar os quadris.
Aportaram com espelhinhos, miçangas e bugigangas, mas os supostos “índios” estavam alvoroçados e não queriam saber daquelas quinquilharias.
Gritavam, entusiasmados:

- O pessoal da gravadora chegou! Estamos salvos!!

Cabral, de cara, se enfeitiçou por Tom Jobim, Chico Buarque, Vinícius, Caetano, Rita Lee, Gilberto Gil, Sinhô, Pixinguinha, Ismael, Noel, Geraldo Batista, Cartola...
Um sem-fim de povo bom de música.

Esperto como ele só, dono de um tino comercial enorme, que só perdia para seu senso de orientação, pensou:
- Isto cá é uma mina de ouro, ora pois!E sacou de seu portátil e gravou, pra começar, Garota de Ipanema e Carinhoso.
Foi o suficiente.
Certo de agradar seu rei, voltou a Portugal orgulhosíssimo da bagagem magnética que levava. É certo que a viagem de volta foi difícil, pois perdeu muito de sua tripulação que resolveu ficar para desfilar no Olodum e no Ilê, no carvanal da Bahia.

Quando chegou, explicou ao rei o porquê da baixa de marinheiros e mostrou-lhe a fita k7, dizendo:
- Isto aqui vale ouro, pois não!
- Não me diga bobagens, pois sim! Disse o rei com enfadamento.
- Meu rei, disse ele num jeito já meio baiano de ser, está na cara que esta música será a mais tocada no planeta. Vamos ficar ricos!
- Vamos? Ora, Cabral, olhe para mim e veja se preciso algo além do que aquelas terras abençoadas que você descobriu, apesar de ir na contramão. Vamos explorar a colônia e só!
- Meu rei, vamos montar uma gravadora vinculada com uma editora e ganhar o planeta!
- Cabral, a viagem lhe tirou os poucos miolos que você tinha. Deixa cá esta fita, confiscada, e vá conversar com Colombo sobre questões mais importantes. Estamos tendo muitos problemas. Além do mais, tamanho monte de ritmo é música de índio. Esquece, Cabral!

O rei confiscou a fita, mas diz-se que de vez em quando era visto cantarolando umas canções nada enfadadas.
Cabral mandou um email para o pessoal:“Índios, sua música não serve para o sucesso”.

Caetano estranhou:- Índio? Eu sou baiano, de Santo Amaro da Purificação!! E foi uma polêmica e tanto!

Mas acontece que os hacker dos Estados Unidos da nossa América tinham grampeado o computador de Cabral. E então ficaram sabendo que havia uma mina de ouro naquele país tropical cheio de “índios”. Mandaram agentes especiais, olheiros, que foram, devagar e sempre, selecionando alguns escolhidos para o sucesso, desde que fizessem algumas concessõezinhas, é claro, que nada vem de graça. Só vai.

Pra começo de conversa, toda “índia” que quisesse fazer sucesso, teria que ser loura. E foi uma correria aos supermercados para comprar o hene-maru super-blonder.E os brasileiros, que falavam português, elegeram uma portuguesa como símbolo com todos os penduricalhos de Cabral, a Carmem Miranda, ora pois, numa tentativa de agradar ao pessoal da “gravadora”. Alguns questionavam as concessões, mas eram uns chatos. Sucesso é bom e todo mundo gosta.

Muitos foram levados embora. Os que ficaram, morriam de fome física, mental e espiritual. Quando Frank Sinatra gravou Garota de Ipanema, Cabral processou o rei de Portugal por perdas e danos.Perdeu. E danou-se. Com todo espaço cedido, os gringos compraram nossas rádios com uma espécie de fruta chamada jabá e determinavam o que se gostava ou não.

Pior: determinaram que nossa música não tocava mais por aqui. Que a deles era melhor e coisa e tal. O músico-índio ficou surdo de esperar ouvir seu som tocando no rádio daqui.Hoje alguns estão felizes: quase já falamos inglês totalmente, acreditamos na globalização como uma forma democrática de expansão das nações, e que no fim-de-ano o Papai Noel nos realizará todos os desejos.

Outros continuamos na luta, batalhando pelo talento, pelo valor e a riqueza de nossos maxixes, que não tocam mais.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Felicidade - possibilidade 1

"O que é que eu quero e não tenho?"
"O que é que eu tenho e não quero?"

São as duas perguntas sobre as quais se medita, na tradição budista, para descobrir de onde parte o sofrer.

Nada será melhor amanhã se não aceitarmos nem usufruírmos o que temos agora.

A possibilidade de sermos felizes está em aceitar o que se tem.

Tudo que nos é dado tem e faz sentido.

Shotaro Shimada