Hoje falo comigo
com a mulher que sou
com as mulheres vivas
que sonham família
amor, afeto, cumplicidade, intimidade
Hoje me divorcio
depois de vinte anos casada
duas décadas de dedicação período integral,
com exclusividade
sete mil e trezentos dias
empenhada em construir o maior sonho: minha família
sete mil e trezentas noites
dedicada a dar e encontrar prazer, afeto, intimidade
um dia fértil e fecundo: Felipe
meu coração em forma de filho
eternamente dias de amor - pra sempre
dois mil e quinhentos dias de desespero
frente à dependência química
quatro mil setecentos e seis - só por hoje
lado a lado na recuperação
espaço do acolhimento para o crescimento
fora da anestesia
Um dia construído
por três mil e seiscentos outros de afastamento
E esse dia,
que não pensei que chegasse,
chega.
Com ele
o peito rasgado
e aprendizado de ser mulher.
Esse dia chega.
Dói. E acalma.
Para as mulheres que como eu sonham
e se dedicam à família,
lembrem-se de si próprias.
Todos os dias de sua existência.
Sem exceção.
A cada manhã
junto com o café
no espelho com batom:
- eu me dedico mais a mim que a qualquer outra coisa?
- eu tenho vida útil caso meu casamento acabasse agora?
Os contratos
de casamento
de trabalho
de família
de beleza
exigem desmesuradamente da mulher.
Talvez numa expiação
por desde Eva a culpa nos ombros
por querer provar do conhecimento.
Não se nasce mulher. Torna-se.
Diz Simone de Beauvoir.
Belo olhar.
Digo para mim com amor
para as outras mulheres tão como eu
Eu, há mais de dezessete mil dias
desejando dezenas de dias felizes
por vir.