quinta-feira, 28 de junho de 2012

Rousseau 300


Pô, Jean-Jacques...

Não precisa mandar tanta mensagem no meu celular. Nem quero ver como está meu tuíter. Calma... Eu não esqueci que hoje é seu aniversário.

Tantas pessoas devem estar te parabenizando ou rezando para que morra. Sim, por que você, apesar de morto, inferniza a vida de muita gente. Das feministas alucinadas. Dos alucinados que te veem como fascista. Dos teus colegas pensadores que não sabem muito bem aonde colocar o desejo. E teu filho, que não recebeu um afago seu sequer e ainda teve que conviver com aquele seu Emílio. Foi sacanagem da sua parte, isso, mas deixa pra lá... hoje é dia de festa. Não vamos discutir a relação entre você e seu filho.

Do meu lado, te admiro. Chegar tão vivo e lúcido aos 300 anos não é para qualquer um. Apesar das suas rabugices, o que te salva é tostar os preconceitos e assumir-se como um paradoxo. Isso me acalma. Lembro, quando me vejo confusa, querendo bijuterias douradas e prateadas, não sabendo escolher, lembro de você. Finalmente posso expor-me totalmente paradoxal, como sou.

De novo esse assunto, do Voltaire? Não fica com ciúme... isso na sua idade fica bizarro. Você sabe que curto o Voltaire, me dou bem com ele. O cara é democrático à beça. “Posso não concordar com o que dizes, mas defenderei  até a morte o se direito de dizê-lo”. Jean, eu sou gêmea dele nisso. Compro a briga da palavra dita, escancarada, mesmo que divergente da minha. Ou melhor: mais ainda se for dissenso. Você nunca ouviu  falar que as mulheres conseguem amar pelo menos três homens ao mesmo tempo? Um é para a alma; o outro, para o corpo; e o terceiro para corpo e alma.

Ah! Não... Não vou mesmo dizer agora quem é do corpo, quem é da alma, quem é do corpo e alma...

Quero mesmo te dar parabéns pela coragem do Discurso sobre as Ciências e as Artes, que nos coloca a crítica sobre as “benfeitorias” da arte, pela clareza do Discurso sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens, que nos arrebata com seu “discurso do rico” e, também, pelo Contrato Social, que nos coloca sempre na posição ativa do consentimento. Entre tantas outras belezas.

Você, Rousseau, é o cara.
Parabéns, meu amigo.

Nem preciso desejar muitos anos de vida, por que você não morre. 
Ao contrário, sempre iluminado, meu iluminista preferido.



Mas é o seguinte: 
se quiser mesmo comemorar hoje à noite na gafieira, 
dá uma atualizada nesse visual. 
Pelo menos no cabelo.
Tá de doer...

"Rousseau a nourri toutes les révolutions"


quarta-feira, 27 de junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Jogo limpo


Eu sou palmeirense.
Mas não sou anti-corinthians.
Menos ainda anti-corintianos.
Eu fico contente que o Corinthians tenha conseguido ir além do  já conquistado.
Esporte é isso: superação.
Equipe.
Desafio.
Vontade de vencer.

Sou, sim, anti-violência.
Seja de que forma for.
O que ganhamos, como cidadãos, com a piada, sem graça: 
“90 minutos sem roubo em SP”,
 fazendo alusão ao fato de os corintianos estarem lá, todos, assistindo ao jogo?
Isso é violência.

Política, religião e futebol não se discute?
Discute-se sim.
Já é hora de  discordar com elegância e a aceitar, verdadeiramente, a dissensão.

Seu time perdeu?
Sofra. Chore. Grite. Mande tudo à merda. É seu direito.
Afinal, o Santos parece ser o segundo time de muita gente. O Santos é o time do Pelé. Quem  gosta do Pelé, gosta, de algum jeito, do Santos.

O Neymar vai torcer para o Corinthians. Pelo menos foi o que ele disse.
E disse bem. Deu um chutezinho em favor da educação.


Faço minhas as palavras de Voltaire, “posso não concordar com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo.” Ou de torcer para o time que quiser, seguir a religião que bem entender, votar conscientemente no político que escolher. Sem que isso seja motivo de violência, para mim ou para você.

No MASP, com Rousseau



 
Amigo Rousseau, 
vou lhe contar, com detalhes, uma tarde, deliciosa, que passei no MASP, aquele museu que você já conhece, mas esqueceu. Você tem se comportado como um velho, apesar de seus 300 anos...

Uma tarde que  foi um bálsamo para os meus cinco (seis) sentidos.

O almoço, leve e lindo, estava uma delícia. A sobremesa, nem posso comentar senão engordo de novo. E sei que vai me criticar, por que considera que a “gulodice é o vício dos corações sem fibra”. Desculpe, foi irresistível.  Se só é possível filosofar em alemão, é impossível diante de uma mesa farta.

Como te conheço, e sei que acredita que existe uma correspondência entre o paladar e o olfato, já aproveito o assunto pra te contar que o cheiro daquele lugar era sutil. Por isso, muito agradável.

Não havia música ambiente. Pude ouvir o silêncio. Além dele, alegres e gentis palavras. Meus ouvidos não identificavam tudo, mas ouviam. Sim, eu sei, que a audição é o mais completo dos sentidos, sob seu ponto de vista, mas o que posso fazer se minha alma estava escutando além dos meus ouvidos? E encantando-se. A musicalidade das palavras substituiu os elementos do discurso.

Eu, que ainda não aprendi a ver, gostaria muito de ter tocado os quadros, as obras de arte expostas ali. Eu queria muito ter sentido aquele quadro vermelho do Modigliani que acordou meus olhos. Ou o Rosa e Azul, tão brilhante de perto, cheio de relevos... Eu não pude tocar as obras, mas nem por isso, a pele, ou a sentinela contínua, como você a chama, ficou esquecida. Eu fui tocada. Ela, espalhada por toda a superfície do corpo para advertir de tudo que possa ofendê-lo, relaxou. Sentiu-se bem. É, Jean-Jacques... aqui concordo inteiramente contigo... tudo que o tato percebe, percebe-o bem.

Meus olhos em festa. Uma festa que pouco a pouco foi me envolvendo e eu não sabia mais quem era real: eu ou aqueles seres fantásticos. Realmente, é preciso muito tempo para aprender a ver. Se para você, amigo, a visão é, de todos os nossos sentidos,  o mais falível, exatamente porque é o mais extenso, eu corroboro: eu me perdi, Rousseau, na sedução rápida do olhar.

Mas não me arrependo, Jean.
Estive em festa nos cinco sentidos.
E o sexto, minha intuição, acordada.

Agora sei por que aquele museu se mantém suspenso.
Pelos sonhos que desperta.




Nair



Minha querida e bailarina amiga, Nira, está no Brasil.

Que gostoso abraçá-la, sentir seu corpo, seu cheirinho. 
Uma bailarina de primeira, baixinha, de pernas grossas, valente.

Lembro  de nós duas na Praça do Pôr-do-Sol, antes de ela ir para a Alemanha.
Lembro  das tardes na sua casa, em Guarulhos.
Nossas confidências. 
Nossos amores. 
Nossos instrumentos da banda sendo lustrados. 
O meu, um par de pratos, e seu, um bombardino. 
Nunca entendi como conseguia soprar aquilo, sendo tão pequenina.

Sua irmã, a Irna, também minha amiga, veio dos Estados Unidos...
Passamos também bons momentos juntas...

Lembro de sua mãe, D. Nair, sempre agitada, querida, cuidando de tudo e de todos.
Ela foi minha mãe substituta. 
Sua casa era minha. 
A qualquer hora.

Além de mãe, foi maestrina.
Foi minha primeira maestrina. Ensinou-me a cantar em coral e a tocar em orquestra. Alegre, em vocalizes ao piano, tentando afinar corações enlouquecidamente desafinados.
Meu Deus, o Fernando, meu namorado, era surdo, eu acho.... 
Não afinava nem bom dia...

D. Nair está na UTI.
Nira, Irna, Inar, Hércules... tristes.

Mas ela não pode estar ali. 
Há muitas músicas a serem tocadas, muitos Fernandos esperando a afinação, muita alegria a sair de seu sorriso.

D. Nair, volte logo.
Por favor.

Nira, minha querida bailarina, sente-se no meu colo. Como hoje à tarde.
A gente chora junto. 
Irna, Fique comigo.
Eu amo vocês.
Eu amo sua mãe.
Nossa mãe.