sexta-feira, 16 de março de 2012

Alfajor

Ganhei do meu filho, que foi para a Argentina, numa viagem relâmpago (e trovoadas que balançaram o avião), um Alfajor Cachafaz.


Alfajor El Cachafaz


Eu vi na Wikipedia que o nome vem do árabe - al hasu - e significa recheado.


O alfajor, aqui do meu lado, um doce especial, para ser comido, me mostrou alguns recheios.


Coma sozinha.
Eu não guardaria nem um teco pra você.
Divide comigo.
Guarda um pedaço pra mim.


Meu alfajor vem com mais recheio: ser dividido, degustado, junto com alguém. Foi logo o que pensei.
Ele ganha em tamanho, em recheio, em delícia. 


Pode ser que alguns pensem que eu sou um a boba em dividi-lo com alguém.
Mas, para mim, não é divisão: é soma.


Desde que a pessoa pense assim também e não queira apenas devorar o belo doce.


To na captura de somar meu alfajor com alguém.


                                         Candidata-se a um Besame Mucho açucarado, recheado de carinho?  




sexta-feira, 9 de março de 2012

A sacola da discórdia

Eu vi uma sacola térmica explodir uma amizade.


Dentro dela havia ingredientes antigos, como companheirismo, parceria, entrosamento, alegria.
Mas na realidade estavam vencidos. Podres já no início.


Eram ingredientes da minha sacola, do que eu quero construir.
Não existiam na realidade, fora dela.


Quando ela foi doada para outra pessoa, eu vi o desrespeito de forma contundente.
E percebi que não podiam mesmo aqueles ingredientes que eu acreditava: quem é amigo, respeita.


Essa sacola me ensinou muito: eu nunca tinha tido um falso amigo, uma pessoa que me enganasse de verdade. Meu instinto, no entanto, dizia que algo não era saudável, mas eu não ouvi.


A sacola anti-térmica voltou.
Mais cheia de minha perplexidade com a capacidade de fingimento humano.
Um pouco mais vazia, da minha ingenuidade.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Vida semifusa


A vida se faz semifusa
quando homens
de olhar sincero
se enganam
com o ópio verde do depois
deixando estrangular ações
emoções
revoluções.


Pausa.


Morrem disfarçados de felizes
Com carinhas de anjos
Hipocritamente em pausa
Na pausa do desespero
De tomar do fantasioso cálice
Abençoado.

TANGO


Quero contar-te
que podes
quando quiseres
rasgar minha roupa
pele ou camisola

Que a força de teu braço
pode me apertar
até que eu perca a identidade
e me apavore
depois me delicie
te devore
te sevicie.

Repito
num só som:


sou tua.

Blues



a porta
se fecha
e uma dor
de partida
se abre

como se fosse
a última.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Afeto compartilhado

De algum modo, eu sempre carreguei o mundo nas costas.

Fazia por mim e por quem não fazia.
Olhava sempre para o todo e pouco pra mim.

A dança me ensina que não preciso fazer tudo: cada um tem sua função.

Aprendo a fazer minha parte solidariamente com a parte do outro e vejo o encontro.
E posso me preocupar em me melhorar, em deixar bonito, gostoso.

Viver ficou mais leve.
E, paradoxalmente, com maior responsabilidade.

Porque se o outro não faz a parte dele, me afasto.
Não tem música, dança ou afeto que resista à falta de responsabilidade.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Demasiadamente humana

Como se estivesse
sur um  tapis magique
eu imagino.


Fosse eu verdadeiramente princesa
Que um gentil senhor descobriu
Todo reino seria para trazer-te alegria.

Se fosse mesmo minha a coroa,
Transformá-la-ia ouro em pó
Cobrindo de riquezas sua pele e alma.


Fosse eu aquela pequena fadinha
Que um lindo menino colou na bolsa
Todo condão seria para fazer-te feliz.

Se fosse minha a varinha mágica,
Eu te traria flores, cores, amores
Desmancharia dores, sofreres, temores


Fosse eu ainda aquela ingênua menina
Que o menino entregou a filipeta
Toda fantasia seria agradar-te

Se fosse mesmo meu o tempo

Que a vida leva no colo, mulher
Todos os sonhos seriam você

Nem fada, nem princesa, nem menina...




Sou humana
Demasiadamente humana




Humana tamanha
Que dói o peito quando a saudade aperta
Que segura o gesto quando o corpo anseia
Que mistura amor, flor e dor
Que chora, ri
Ama
Vive




Tudo que tenho a oferecer
a mágica, reino ou fantasia
são pontos brilhantes
escapados da minha alma:
Sonhos, desejos, amores
para vivermos juntos.
Humanamente.

Como dois tigres.